14 setembro 2016

Escrever cansa

     Eu sempre me perguntava: “Por que me canso tanto quando escrevo?”. Um dia, garimpando livros num sebo, encontrei a resposta em um livro de prosa poética. 
  A orelha do livro contava que era de um poeta mineiro, advogado, que tinha feito sua coletânea após ganhar, não sei como, alguns concursos literários. Mas era uma série de textos inconjuntos, sem uma linha temática clara ou estilo bem definido. Dava para ver que eram essas coisas que a gente pensa e escreve quando na verdade tinha algo mais importante para fazer. Eram textos desses que saem como distração, poesias dessas para procrastinar, drogas pesadas contra o tédio, armas para matar o tempo. 
       A resposta, eu dizia, estava na última página, meio amarelada, meio solta, que eu criminosamente arranquei, dobrei e coloquei no bolso. Por que eu não comprei o livro? Não sou crítico literário, mas ele era um “poeta menor”, como dizem os críticos. De toda a coletânea, para mim só se salvava um trecho de fala de uma personagem – uma psicanalista metida a escritora, em uma crônica metaliterária – mais dois poeminhas e a tal última página. 
  O trecho de fala da psicanalista inventada é interessante, porque com ela o advogado-poeta tratou da relação que muitas pessoas estabeleciam com os seus textos. Também achei curioso porque ele criou uma psicanalista que não acreditava que a sua escrita revela o seu inconsciente – por mais inventada que a coisa toda seja. E o trecho na verdade revela uma certa influência do João Cabral de Melo Neto sobre o cara, além da explícita referência a Fernando Pessoa:

“Às vezes um texto é apenas um texto. Se você, meu bem, me lê para descobrir quem sou, você está lendo errado. Não faça como meus pacientes, que me lêem tentando escavar meu inconsciente, que sofregamente meus textos vasculham para em vendeta me analisar. Pobres de si, não sabem que uma escritora sou, uma poeta, uma fingidora, tal como Pessoa tantos foi e tantos se fez e se mostrou. Minha escrita não revela quem sou, ela só se revela a si mesma. Quem eu sou, sou ali onde eu me calo e no meu silêncio eu sou dona do que falo. Aquilo que você lê quando você me lê diz mais sobre você do que sobre mim. As páginas do meu caderno são como um bloco bruto de mármore, que vou esculpindo linha a linha. E diante delas eu suo e as mãos calejo. O que eu escrevo é o que eu penso, mas o que eu penso não é onde eu existo.”
  Consegui citar esse trecho tal qual aparece porque também furtivamente arranquei esta página. Na verdade não arranquei. Ela já estava meio solta... e era justo. O dono do sebo já me vendera um volume do Ficciones do Borges faltando páginas. Enfim, só a destaquei... para aqui enfim destacá-la.
  O primeiro poema aqui cito não porque o destaquei do livro – o dono do sebo estava passando pelas prateleiras –, mas porque sempre me lembro quando encontro pessoas novas que me lembram velhos conhecidos: 

“Sei que Deus é criativo, mas começo a ver caras repetidas...” 

  O segundo poeminha, vale destacar, é chamativo pela pretensão do poeta a Criador e pela intenção concretista:

“De 
         linhas
tortas 
             e 
palavras 
              retas:
Esse é o caminho do poeta.”

  Mas a tal última página, eu dizia, e finalmente digo, apesar de amarelada pelo tempo, ela vinha do topo até embaixo toda em branco. A minha resposta, o das linhas tortas escreveu no rodapé, no final do final do livro, onde não caberia mais nada a se dizer em seguida. 
Quando li suas últimas palavras, eu imaginei esse cara entrando sozinho na casa de Astérion: o labirinto. Mas não levando novelo de linha e espada, mas apenas levando, como esses que acreditam que podem mudar o mundo com as palavras, somente papel e caneta. Quando percebeu que não conseguiria mais sair dali e que palavras não parariam um minotauro branco de meia tonelada, escreveu as palavras derradeiras e as arremessou por cima da murada. 
  A resposta para aquela minha pergunta, eu dizia, eram como um bilhete achado no bolso de um náufrago morto na beira da praia... Que eu achei, li e rasguei para mim:

“Desisto. Escrever cansa. Uma página em branco faz uma força tremenda para se manter em branco. Eu sou mortal, a página em branco não. Eu tenho fome, sede e sono, ela não tem. As linhas iniciais são as mais duras... e eu não tenho mais força para as próximas. Agora eu entendo: as linhas em branco são feitas de nada: uma substância absolutamente coesa. Mergulhei e nadei nesse nada e acabei aqui, jogado-morto ao rodapé, destituído, sem mais nenhum fôlego para continuar.”

  Sim, poeta menor, escrever cansa.

28 agosto 2016

Quando eu escrevo

quando eu escrevo
não escrevo pra ninguém
não escrevo pra você 
nem pra ela nem pra ele
não dou indiretas 
não faço dedicatórias

quando eu escrevo 
é para falar de uma coisa que me acontece.
ou de algo que ocorreu. 

sim, bem pode ser sobre uma experiência contigo
boa ou ruim
ou sobre algo que você me disse
ou que outros disseram e eu ouvi
mas não vai ser sobre você
nem sobre mim

quando eu escrevo, escrevo pelo jogo: 
encaixar palavras
de um certo jeito diverso
pra sentir como elas se equilibram em mim
ou pra deliciosamente ver 
como elas te 
                                                    desequilibram...

quando eu escrevo, escrevo pelo experimento

o que me acontece irá mudar ao se transmutar em texto? 
o que você não me dirá quando o ler e me ver? 
iremos nos olhar de um outro jeito, incerto, diverso?

quando eu escrevo, escrevo pela perda de tempo

eu deveria estar trabalhando...
mas estou aqui brincando com a página
Pessoando com ela fingidos sentimentos e falsas impressões

quando eu escrevo... 

eu estava pensando em você?
ou seria em outra pessoa? 
talvez em mim mesmo? 
em ninguém talvez... 
ou em todos nós

como não sei pintar
escrevo o que vejo
se, no que descrevo, 
você se vê,
é porque nós estamos olhando pro mesmo lado 
ou um pro outro
e, se for assim,
que nesse encontro possamos sorrir.

23 agosto 2016

Reticências XII – Ela...

Não se engane.
Eu vejo como você me vê:

O que você só vê
nos meus,
são os teus olhos.

O que você só ouve
nas minhas,
são as tuas palavras.

O que você só sente
no meu,
é o seu corpo.

O que você só quer
no meu,
é o seu próprio amor.

E sim, nisso você sempre se mostrou muito bom: 
maquinar, planejar, calcular...
Muito bem:
Pois receba aqui as minhas reticências...



Reticências XI

Sim, meu amor, mas eu preciso fazer mais coisas
Que eu não preciso fazer.
E eu vou embora e você não vem.
Já disse.
E eu não preciso te amar.
Amar não é coisa que se faz por dever.

Você não é nenhuma divindade,
Dessas que se amam à distância.
Então de mim não espere nenhuma súplica.
Porque de você não espero menos que simples reticências.

Reticências X – Ela...

Ainda que me tendo ao teu lado,
Você
Só
Olha esse teto sem respostas
No alto
Escrevendo qualquer nada nessa página em branco de muitas linhas.

E você então me disse:
“Vou embora e você não vem!
Que tipo de história é essa a nossa?
De ponto final ou de reticências?”

Vejo que as linhas da nossa história
São como as linhas das nossas mãos:
Curtas, tortas e sem qualquer significado.

Porque um amor que se inventa, meu amor,
Recebe sempre um ponto final na última página.

Fogueiras, águas, poeira

            Tudo é feito as águas do rio Heráclito... Afinal, o que é permanente nessa vida? O que me parece fatal e sério agora, passa e perde o valor – cedo ou tarde.  Aquilo que trazia medo fica pequeno e some, simples sombra. Parece que tudo é água que escorre ou seca, poeira sobre a mesa e um sopro. Há uma terra por sobre onde esse rio corre? Há uma mesa por sobre onde essa poeira junta? Há isso que sempre esteve e que é apesar de?
            Apesar do nome que lhe deem ou do nome que eu lhe dê... isso que permanece, nisso posso me apoiar, posso ver, sentir, tocar? E se pergunto é porque não sei o que é. Sei que é tudo o que não vejo, não sinto e não toco, porque o que vejo e sinto e toco passa e vai, feito vela pela noite. E isso que parece a terra sob a água, não sei o que é, mas ainda assim a isto me refiro, buscando palavras que apenas dizem o que parece ser.
         Essa mesa empoeirada cuja planura não tem forma, porque palavras não poderão descrevê-la, porque palavras são artifício nosso, porque são fogueiras que mantemos acesas não deixando de lhes deitar lenha, isso que não posso ver porque o que vejo vejo com os olhos e fecho os olhos como os abro e as coisas aparecem e somem e se acendem e se apagam e tudo vai como vem, isso que não posso sentir porque sentir é tudo que me resta se nada me sobra e ainda assim esse sentir passa e muda, isso que não posso tocar porque só tenho pele e tendões e nervos e vísceras, isso é só vazio que circunda e  preenche, ponto de onde posso tudo olhar e ver tudo ir, tudo rodar, tudo escorrer, janela de onde vejo a chuva cair e evaporar.
            Isso são fogueiras, águas, poeira.

21 agosto 2016

Pensar em você

Pensar em você.
O dia todo pensar em você...

Mas não que eu fique pensando em você
Como quem se debruça sobre um problema. 
Eu penso em você, 
Todos os dias eu penso em você, porque você...
Quer dizer... não é que eu pense em você!
Você se pensa em mim! 
Quer dizer, aqui... aparece!
Eu te vejo, sinto seu cheiro, a textura da sua pele...
Seu gosto...
Seu delicioso gosto mordiscando meus lábios daquele jeito como naquele dia...

Mas não é bem assim, exatamente, "Eu te vejo", literalmente.
Eu te vejo assim...
Vejo sem ver, vejo por querer, vejo por pensar...
Em você.

Mas não é assim, propriamente dizendo, de eu pensar em você.
É que você me acontece!
Não, não, não é complicado, é bem simples! Complicado é dizer!
Acontece de eu pensar em você.
Quer dizer...
"Pensar em você. O dia todo pensar em você." assim pensando sem pensar.

Acontece:
É como o vento que entra pela janela.