26 abril 2014

Tão distinto...

Artista: Duy Huynh.


Você que anda só tão distinto
Não estranhe que ande só
Tão                           distante...

21 abril 2014

Caga-sebo

          Tem certos momentos na nossa vida que a gente só quer um sinal, uma dica vinda lá do alto. E tem vezes que esses sinais vêm e às vezes é do alto mesmo! Outra noite tomei uma decisão importante e de manhã, assim que saí de casa, a primeira coisa que vi — e o raro é que foi assim beeeeem de perto — foi um passarinho pequeno do peito amarelo, parecido com um bem-te-vi.  Ele pulava piando no galho baixo em cima da minha cabeça. Humm... Uma decisão importante e um acontecimento insólito assim em sequência... Sabe o que isso quer dizer?
  
Fotografia: Thiago Cabral Correia, contista e fotógrafo, em Guaramiranga, Ceará, 2014.
             Nada. Sempre evitei sinais vindos do além. Em 2001 (e agora é que percebo que já fazem agourentos 13 anos), eu comecei a ler o conto “A cartomante” do Machado de Assis, mas parei bem na parte em que o protagonista estava prestes a subir no consultório dela. E aqui no turvo da minha memória eu espio ali do outro lado da rua aquele cara se borrando de medo diante de uma porta com adereços de cigana. Não passei daí no conto e não lembro qual foi a coincidência que me fez parar a leitura. Até hoje não sei como essa história acaba... Tem também um conto do Rubem Fonseca, intitulado “Cropomancia”. É a história de um cara que aprendeu a predizer o futuro fazendo a leitura na sua própria... Adivinha? Antes de o cara fazer o derradeiro vaticínio, também aconteceu algo que não me permitiu terminar o conto. Coincidências? Talvez. Ou talvez algum tipo de prisão de ventre literária.
          Carl Gustav Jung foi um psiquiatra suíço muito erudito que formulou um conceito muito curioso: o da sincronicidade. Ele disse: é uma "...coincidência significativa de dois ou mais acontecimentos, em que se trata de algo mais do que uma probabilidade de acasos." (Collected Works, VIII, §959). Ah, "sincronicidade" então se refere às raras (mas tão frequentes!) coincidências entre eventos não relacionados, mas que se mostram ligados de um jeito bem significativo. Vejo que isso realmente ocorre, mas em determinados momentos de nossa vida, e geralmente em momentos de decisões importantes. Eu vejo assim porque eu me pergunto: "Se a coincidência é significativa, quem é que dá o significado?"
            Então aquele passarinho só podia ser um augúrio. Um agouro não era, porque eu nunca ouvi que o diabo era tão bonitinho, nem que maldições e pragas soavam como um piado fino. O nome dele deveria me sinalizar alguma coisa... E com um pouco de pesquisa descobri que o nome do ser é Caga-sebo! Ele veste as cores do bem-te-vi (um fã talvez?), mas trina beeeeem diferente do seu ídolo. Bem, o bem-te-vi canta o que fala, ele é bem direto com a gente. Mas o que é que o Caga-sebo diz? E eu aqui duvidando que o Cão podia se fazer de bem-te-vizinho... mas com aquele nome sujo já não duvido da Sua criatividade e já não sei de mais nada.
            O que eu sei é que no passado os gregos consultavam a passagem dos pássaros para tomar suas decisões. Não ficou registrado, mas viram Aquiles olhando para cima antes de zarpar contra Troia. Homero suprimiu esses versos porque não seria muito heroico. Hoje o mundo virou do avesso e parece que são os augúrios que nos consultam depois que tomamos uma decisão. Fomos abandonados por eles, mas mal amigos que são, nos procuram quando deles já nem mais precisamos. Eu, que sou bom amigo, tento ver o lado deles: parece que se cansaram de serem sempre os culpados.
            Será que eu poderia então ler o meu futuro no sebo daquele passarinho? Melhor não, nada heroico.

07 abril 2014

Uma noite na taverna, quadro II



“Sou o sonho de tua esperança,
Tua febre que nunca descansa,
O delírio que te há de matar!...”
(“O fantasma”, Álvares de Azevedo)

            “Pois eu vos digo que os raios caem de baixo para cima!”. Aquela ideia, afirmada assim com convicção no ano de 1855 de Nosso Senhor, logo mostrava que ela não era mulher vulgar, apesar de viver de mulher da vida naquela taverna tuberculosa.
            Para B., que a ouvia escutando apenas como ela gemeria logo mais com seus tapas, porque mulher gosta de apanhar, e de pau, para B., ela só podia ser filha de macaca preta com seu dono branco, enjeitada por algum azar quando menstruou ou fugida e recomprada pelo boa pança que agora lhe enchia o copo. Um bom negócio, decerto, porque ela não era negra nem branca, mas até que branca na luz dessas lamparinas, e comer uma branca assim não é mal negócio, e ela bem que parece limpa, vê-se que tem todos os dentes. Decerto vale o quanto deve custar, e ele bem que gosta de uns cabelos não lisos e escuros... como o dela, pensou B. duro.
            O que ele não sabia é que ela jamais se esquecera de algo que ele já não mais se lembrava.
            O outro copo de B. foi ela mesma quem serviu, apertando-lhe o volume que apontava para o andar de cima onde ficavam os quartos. E para a sorte de B., ela disse nas escadas que não lhe custaria nenhum conto de réu caso ele a satisfizesse um pedido ou dois. Até três. Pois bem, até três.
            Na porta a mulher segurou sua saia para que ele ali logo não a arrancasse. Ela se colocou na cama e foi engatinhando passo a passo até a cabeceira. Repousou a cabeça sobre as dianteiras, olhando deliciosa para trás. A saia longa desenhou a curva daquela traseira erguida de cio. Era mesmo uma cadela te pedindo uma cinturada. Não senhor, os pedidos primeiro. Ele só deixou passar o contragosto porque ela já lhe trazia outro copo e aquela cicatriz naquela barriguinha plana e morena deu-lhe a impressão antiga e gostosa de sua primeira forçada numa escravinha mestiça, ela era filha de seu pai com uma negra, mas pena que num dia de chuva ela fugira, encobrindo os rastros nos encharcados da fazenda. Deve ter morrido em algum barranco, pois havia tempestade de raios e os rios subiram, nunca mais fora vista. Tomando o copo de um só bom gole, porque é assim que homem bebe, ele já estava quase mandando os três pedidos pra merda.
            “Primeiro: diga-me seu nome de família”. Disse. Ela afrouxou as calças do homem. “Segundo: abra bem os olhos e veja os meus.” Abriu. E ele a sentiu o sacando e o manipulando lisa, porque ela cuspira na mão. Agora de olhos fechados ele viu que deveras fechara um bom negócio. “Terceiro: você me acredita que um raio cai de baixo pra cima...”. Acreditou. E de olhos ainda cerrados, porque aquilo era muito bom, não testemunhou que o seu punhal lhe explodiu mandíbula acima, atravessando a língua, até fincar-se no seu céu da boca.

19 março 2014

Lisbon revisited (2014)


             Sempre que retorno a Portugal, venho mecanicamente a esta pequena tabacaria, uma das mais tradicionais de Lisboa e para mim a mais sagrada. Tomo meu lugar nesta mesinha quadrada à janela, que dá para uma rua de pedras, e não descrevo mais a rua porque só reparo nas pedras, cinza-azuladas. Mal olho para fora porque sossego mais ouvindo as mesmas histórias de sempre deste senhorzinho velho, filho do primeiro dono do lugar.
            É ele mesmo que aponta, servindo o café, que aqui no tampo de madeira você pode notar as marcas redondas de xícaras derramadas antes da Segunda Guerra. O verniz passaram depois, quando seu pai voltou vivo mas sem um pé. E é ele mesmo que em seguida aponta no cantinho que ela tem essa pichação à canivete, e a tabula antiqua est como este bom talho diz “A.C.”. Mas não foram os romanos, ele conta rindo, até porque não conheceram o Cristo.
            É que, embora não fumasse, a última vez que Alberto Caeiro foi visto em Lisboa foi quando esteve com Álvaro de Campos nesta pequena tabacaria. E a mesa em que se sentaram era esta, e você consegue ver que a base é um X inteiro e não montado, sobre o qual se ergue esta coluna única e onde se pousou o marcado tampo.
        Para a época, esse tipo de base, um grande ×, se tratava de um desenho quase impensável para uma mesa. No entanto, via-se ela ali como a incógnita de uma equação. “Mestre Caeiro, esta mesa tem quantos pés, um, dois ou quatro?”. “Ela tem os meus e os teus.”.

O problema dos palhaços



         O problema dos palhaços é que eles aprendem a fazer de palco qualquer metro quadrado.
        Cedo descobri que aquilo que sinto depende do que vivo e vejo. O meu problema é que o que vivo e vejo não tem interesse nenhum pra ninguém, a não ser pra mim mesmo que afinal estava lá passando pelo que eu passei. Então decidi escrever sobre os outros ou então por eles, e foi o que me salvou porque tenho a sorte de conviver com pessoas com vidas belíssimas e cheias de conflitos, e eu sou muito fraco e me apaixono por todas essas histórias e nos meus textos eu falo sobre o que elas dizem em mim. Então acabo falando de mim, eu sei, mas pelo menos um pouco menos. Não sei se assim é mais interessante, mas com o que vejo e vivo com o que os outros significativos pra mim viveram e viram, eu me sinto um cara menos tedioso. E o meu lance não é de tomar as dores dos outros. O meu modus operandi é o de cometer um furto dos olhos de todos e olhar a partir deles. Assim eu me enxergo por um outro ângulo e  enfim eu acabo me vendo e me acabo de rir... das minhas próprias mazelas. Ridendo castigat mores, dizia o ditado. Ou seja,  pela comédia podemos corrigir os maus costumes. Sigo então com esse meu costume: o de fazer das nossas vidas este palco, da minha e dos que nela atuam.
        De onde veio esse mau hábito?
     No ido ano de 2008, quando eu li pela primeira vez o Cem Anos de Solidão, o Coronel Aureliano Buendía me disse, na verdade me mostrou, que textos que alguém escreve pra si mesmo têm – e as palavras são minhas agora – o mesmo valor que galhos secos têm: ou seja: têm serventia como lenha num braseiro. Aliás, tais textos, como vão escritos no papel e papel queima muito rápido, mal servem para terminar uma canja. Pois bem, desde a lição do Coronel Aureliano eu mudei meus hábitos alimentares e venho usando de mim como ingrediente tal como venho usando o leite em minha atual dieta. Justifico essa analogia culinária: é que tenho uma leve intolerância à lactose e ingredientes lácteos me deixam cheio de... bem, digamos que eu viro um perigoso botijão com defeito.
            O fato é que percebi que, tal como o leite pra mim, escrever para si mesmo deixa a pessoa toda cheia de si, e no meu caso, todo cheio da minha própria bioquímica. Dizem que escrever para si mesmo é bom para botar pra fora o que se tem preso dentro de si. Realmente é isso que acontece. Dá um alívio né?! Mas quem vai lendo vai sentindo uma coisinha antes do som das palavras. Antes do som por quê? Porque o nariz vem antes das orelhas. E aquela coisinha vai se acumulando e vai se acumulando e... e mesmo abrindo as janelas aquilo demora a passar.
            Por isso atualmente só escrevo sobre mim mesmo quando só eu vou ler ou só quando amigos bem próximos vão ler. Sim, o resto eu prendo não torno público. E sim, peido sozinho. E sim, meus amigos queridos, naquele dia tinha sido eu. Engraçado como a intimidade carrega uma dose de desrespeito né. Pois bem, com os textos que exponho, podem ficar tranquilos, eu tenho o cuidado de não bufar na cara de ninguém. Para descrever esses textos nem se adequa essas metáforas fisiológicas.
          E você me pergunta por que eu falei tanto de peido, e pum, e bufa. Não tinha umas metáforas melhorzinhas não, Umbelino? Justifico: É que eu me sinto um palhaço velho que já não conta mais piadas, mas que deslinda seus defeitos e assim faz da careta algo bonito. Sei que é muito feio um palhaço fora do palco, então pelo menos reservo esse pequeno espaço para mim. Se eu não tivesse aqui, seria até muito risível, mas não de um jeito gostoso. Portanto, escrevo. Aqui posso brincar. O meu problema é que às vezes, esclerosado, não tiro o nariz vermelho e esqueço que não sei contar piada. Então viro a própria.


13 março 2014

Na retina



Um dia de sono,
um dia com sono...
Chega a parecer
que não tive noite,
mas o fato é
que não tive dia:
tive um dia só
de pura rotina.


Então te encontrei.
E as mesmas coisas
de todos os dias,
os meus passos todos
de pura rotina
foram outras coisas,
foram outros passos,
foi um outro dia.


Agora eu te tenho
em meus dias todos.
Você: a imagem
em minha retina.
Já não tenho sono.
Já não é rotina.
É constância pura
de todos os dias.