07 agosto 2021

Prece

me cura da minha miopia
me faz ver o feio, o falso e os cadafalsos
me cura desse olfato fraco
me deixa sentir de longe o chorume, as chorumelas e os chauvinismos
me cura do mau do bem

me livra da prisão do bom samaritano
de viver se fudendo, de viver se doando
me ensina a ser vilão com quem merece
e a prestar atenção ao que adoece
me livra da cabeça baixa
fortalece meu olhar feroz
agiliza a minha língua
pra uma resposta rápida 
contra o debochado arrogante
fortifica a minha voz
pra minha fala sair atroz
quando a justiça pede

que eu cale aqueles que não sabem a hora de calar
que eu ouça aqueles que sabem a hora de ouvir

tu me ensinou que o bem tem um limite:
o bem acaba onde começa a fazer mal.
então livrai-me do mal do bem

27 julho 2021

Dormir e esquecer

Ela é a mãe dos pesadelos sonhados
 - desses que a gente acordado sonha  - 
e é filha dos pesadelos vividos
- desses que a gente sonha nunca viver
mas vive,
deles não acorda
e de olhos primeiro vidrados e depois baquiados não para de ver.

Ela de nós não se cansa 
e de cima nem de dentro não sai,
mesmo a gente dizendo pra ela ir embora 
porque já não aguentamos mais

e só duas simples coisas queremos:
dormir e esquecer
dormir e esquecer
dormir e esquecer.

Ela é surda e não para de falar
de falar e repetir
de repetir e remoer
de remoer e ruminar
de ruminar e relembrar
daquele lugar e daquele momento que já estamos 
exaustos, enjoados e viciados em revisitar:
os nós em nós mesmos, 
as derrotas, os defeitos, os desejos, 
os despejos e foras levados, 
os orgulhos idiotas e defensivos, 
as ratadas, as patadas e covardias,
os socos que queria ter dado,
e todos os chutes e tapas, 
empurrões e rasteiras recebidos 
alguns com juros e outros tantos gratuitamente

Ela não se cansa de nos cansar e sugar e caçar 
sempre atrás, sempre aqui, sem sair
nem de cima, nem de trás, nem de dentro, 
sem deixar que façamos duas coisas tão simples e tão naturais 
que deveria ser crime ela não nos deixar
dormir e esquecer
dormir e esquecer
dormir e esquecer
só isso, pelo menos isso, 
nada mais do que isso: 
dormir e esquecer...


12 julho 2021

Os girassóis já morreram

Os girassóis já morreram

Já não mais giram 

E o sol de leste a oeste segue.


As sementes pelo solo se espalharam.

A chuva um dia vem.


Antes de morrer, semearam.

Viverão.

11 janeiro 2021

Estupor

Você sabe:
Não estou imune a seus efeitos:
Brinquedos pútridos cheirando a gala

Há tanto tempo que eu trafego
Com essas blindagens grossas feitas de não:
(“Não há mal nenhum”; “Não passa de uma brincadeira”; “Não estou te usando”)
Não preciso de ajuda

Há tanto peso que eu desprezo:
O teu estupro sobre minha pequena boca
(Reforçada a calar, afinal, é feio falar de boca cheia...)
E o meu estupor sob minhas largas retinas serradas
Vertendo hemorragia sob minhas pálpebras em comportas cerradas

O que me deixou por tantos anos largado
Alargado tateando solo uma solução:
A dissolução dos teus efeitos, do que trafego e do que desprezo.
E eu sei:
Você não está imune à minha causa.
Você sabe e eu sei.

08 agosto 2020

Cosmogonias - I

Tresloucados, Trabalho e Tempo treparam por três turnos todos por toda a temporada...

...então nasceu Cansaço.

Cansaço casou-se com Cocaína, cujo caralho carnudo causava-lhe cruentos cortes...

...e vindo do vermelho vazado veio o Vazio.

Vazio viu Vida em volumosos volteios com Valium, a qual virou mãe de Sono,

Sono se amou sozinha por seis semanas sacais, e de seu seio seco saiu...

...o maravilhoso, massivo, manchado, monstruoso, Morte.

02 março 2020

A palavra matemágica

0 vezes eu disse, mas
1.000 vezes eu quis dizer:
10.000 amores não são maiores que o um amor de nós dois. Se
1 vez agora eu disse, queria então uma palavra matemágica que
1.000 vezes multiplicasse essa
1 vez, e assim realizasse o que
0 vezes eu havia dito.

25 fevereiro 2020

Distâncias

“Tá quente hoje né?” – perguntar
Conversa pública em rede social
Um sexo casual transar
Amizade de Carnaval
Papo de mesa de bar
Dos outros falar mal
Natal com a família toda jantar
Atendimento médico no hospital

Escrever uma carta à mão...
Secar à dois uma garrafa de vinho...
Beijar na despedida...
Abraçar encostando a cintura...
Falar baixinho no ouvido...
Sorrir sem dizer mais nada...
Olhar no olho longa e lentamente...
Entrelaçar as mãos em silêncio...