27 agosto 2022

bota pra fora, bora pra cima

Arte é vida...
 
bota pra fora
bora pra cima
bota pra fora
bora pra cima
bota pra fora
bora pra cimaaaaaaa

não vou aceitar mais qualquer merdaaaaaaa
eu tomei as rédeas da minha vidaaaaaaaaa
razão e paixão aprendi a domaaaaaar

bota pra fora 
bora pra cima 

já sei o que eu quero
meu plano é muito certo
deixo pra trás
todo aquele deserto

bota pra fora
bora pra cima
bota pra fora
bora pra cima
bota pra fora
bora pra cimaaaaaaa

recomeçar, conversar com a realidade é reagir. reagir, reagir, reagir e não cair. vou subir, vou subir as escadas que um dia eu desci... meu novo dia não é amanhã, meu novo dia é hoje, meu novo tempo é agora, a hora de recomeçar, um novo giro na espiral da vida. aprendi o que tinha de aprender com as minhas feridas....

bota pra fora 
bora pra cima 
vamos juntos 
porque
Arte é vida...

Autoria: Zé Umbs e Anilson Atlantis 

23 agosto 2022

sobre o poder de tornar a dor em poder

senta aqui do meu lado menina flor
escuta essa moça velha e abusada 
de ventre e de mãos calejadas

vou te ensinar o poder
de tornar a dor em poder
e poder sentir a dor
sem se desfazer em lágrimas

esse teu mar salgado
represado
em teu peito lindo e cheio de vida
cujas águas sempre chovem de baixo pra cima
formando rios 
sob teus olhos de esmeralda
da cor do mar
esse teu mar salgado
tu irá verter não só para os teus olhos já cansados
mas também para tuas mãos e lábios
com ondas fortes
levantadas
com a tua respiração

inspira...
um, dois, três, quatro
cinco, seis, sete
segura
o que grita no teu coração
expira...
sete, seis, cinco, quatro
três, dois, um
grita o que sussurra na tua cabeça
fala, expõe, descreve, conta
narra tudo aquilo que no fundo do mar se passa
inspira
sete, seis, cinco
quatro, três, dois
um...

vou te ensinar, criança
o poder de tornar a dor em poder

fazer o que tu quer fazer
dizer o que tu precisa dizer
amar quem tu deseja amar
desprezar quem te ensinou desprezar
negar quando tu sente negar
cantar como tu se ouve cantar

ser quem tu ama ser

e pra casa do caralho mandar
aqueles
e pros sete infernos amaldiçoar
aqueles
aqueles que não vierem a te respeitar

tu não aceitarás menos que o melhor
tu não irá tolerar menos que o máximo
e ai daquele que não te for impecável
por cometer o pecado de incomodar
a deusa dengosa que cochila dentro de ti

o teu corpo será um altar
onde só se pisa de pés muito limpos e descalços
onde apenas se toca de mãos lavadas e unhas cortadas
onde se olha com calma cada lindo detalhe
e se ouve calado o som do órgão potente e afinado 
que se encaixa na tua caixa torácica
onde se agradece sete vezes 
por poder se aproximar
e sete vezes agradece 
ao se despedir

o teu corpo é o teu altar
feito de couro, carne, vísceras e ossada
regado pelo vermelho rubi líquido 
que foi da tua mãe herdado, e que ela herdou da tua avó, 
que herdou da mãe dela, 
que herdou de todas as outras antecessoras
que já se foram sem deixar testamento
mas mostram na tua pele um testemunho
para que teu corpo seja iluminado 
a consagrar o que há em ti de mais sagrado:
que é o teu sopro, o teu hálito, 
a tua saliva, teu suor e feminino transudato

bem aventurados aqueles que tu permitirá
nesse solo de barros santos
poder comungar
pois tu terá aprendido
a transmutar 
a dor em poder

de uma velha amarga às marias moças angelicais

já fui como tu
maria moça
de lindos seios, de vasto ventre e de longas asas
ao mesmo tempo um tanto insegura
ao mesmo tempo bastante ousada

olho pra trás e hoje eu vejo
que já sou uma andarilha antiga das estradas
rompi 10.000 chinelas de tantas e tantas caminhadas
e já perdi as contas 
de quantas vezes cruzei 
as quatro pontas
das encruzilhadas
ouve essa velha amarga
me chamo Lua Nova das Nove Almas

sua eleuteromania é a sua aliada
ela diz "adeus criança..."
para essa coisinha trouxa
que tem essa carinha de bonzinha
mas é a sua carrasca

abraça a tua amiga quando ela chegar em casa
prepara o banho, a mesa e a cama pra liberdade
pois ela andou 10.000 léguas e já chegou
toda suada, morrendo de fome e muito cansada

despeça a tua carrasca quando ela fizer em ti morada
aponta a porta da rua à essa chata acomodada
apenas seja hospitaleira com quem sabe ser hóspede

teu ansioso anseio por solitude
te movimenta pro que te importa
pro correto esforço de uma correta atitude

mas tua insegura aspiração por segurança
só te segura sozinha por trás da porta
e te deixa respirando poeira atrás de mil desculpas

seja livre
mas também não seja burra
seja bruta
mas também não seja estúpida
seja lúcida
mas também não seja sem graça
seja acessível
mas jamais seja de graça

seja você mesma
e trate a si mesma
como quem trata
a sua melhor aliada

21 agosto 2022

olha quanta força que eu faço

olha quanta força que eu faço
pra não me ver sozinho
um eterno estranho no ninho
vagando semialeatório pelo espaço

eu me desfaço, me dispo e me despeço
seminu, semicru, semiológico me despedaço
em ilogicidades 
que se não fosse esse poço no peito
eu não as faria

mas foda-se
porque eu sei que de um jeito ou de outro
e de outras formas eu já fazia
foda-se porque eu carrego um Sol atrás dos olhos
iluminando muitas gravitações 

vai ver o meu vagar não é tão à toa assim
e talvez tudo gire com algum sentido
e quem sabe tudo não passe
de só um perpétuo vai e vem

mas aí eu me pergunto se essa rota
tão torta
se é eu indo ou voltando
se esse caminho é um rumo 
ao horizonte ou um beco sem saída
se é uma estrada no prumo 
da ida ou da volta

só
sozinho e confuso

expulsem essa minha perpétua inquilina

estou afundando aos poucos num buraco
que eu já conhecia o fundo
e do qual eu já sai e não tenho saudade nenhuma
nenhuma!
porém me sinto entorpecido 
e sem ter tomado droga alguma

não consigo mais sorrir sozinho
eu tento até esticar os lábios horizontalmente
e mostrar os dentes
mas me é estranho esse alegrinho esforçado, forçoso e montado

a quem estou conectado?
só a mim mesmo?
por que esse vazio aqui?

no peito eu sinto bem direitinho... essa solidão
ela nunca esteve tão nítida assim...
e noto bem que ela não está como uma visita
não é uma estranha nem gente nova
como quem é de fora e que chega agora
mas a sinto como velha conhecida
como uma amiga de infância
como se estivesse sempre aqui... 
minha perpétua inquilina 

uma invasora que me enche com um enorme buraco
e me mata de fome de contato
mas parece que todo mundo teme se aproximar
e acabo eu no cantinho, encolhido, fechado

quando eu era criança eu, só, pensava: me olhem!
eu só quero que me vejam
eu não sou desses que gosta de aparecer
mas não suporto passar despercebido

quando eu cresci eu, só, dizia: me escutem!
eu só quero que me ouçam
eu não sou desses que faz questão de dar a última palavra
mas não aguento entrar mudo e sair calado

do sabor doce da tristeza eu já enjoei
pelo menos então me tragam agora 
o amargo seco da decepção
já até prefiro estar mal acompanhado
do que assim tão bem acompanhado 
por esta amiga velha, a solidão

solidão é esta sala vazia
muito fria e sem um pingo de umidade
onde minha própria voz ecoa
sem nenhuma humanidade
onde me vejo nu já azul de gelo 
os pés e mãos pretos
prestes a necrosar
e com uma sede voraz na boca, já toda rachada
a língua áspera, seca e pegada
tão travada que mal dá para abrir a boca 
pra implorar por ao menos meio copo d'água

sala escura, vento gelado
e num esforço, por um milagre, grito
mas a voz não sai
me mexo mas o corpo não se move
ouço a todos e ninguém me escuta
vejo a todos e ninguém me enxerga
e nada tem cheiro de nada

parece que o inquilino sou eu na casa dela
de teto baixo, um claustro apertado
e de paredes pintadas com meu próprio sangue
num contrato vitalício assinado com as minhas lágrimas
quando eu só queria um amigo
para expulsar essa minha perpétua inquilina

um terror numa tarde de domingo (sobre coisas que matam o amor)

fica mais um pouco
já coloquei a água no fogo
vou te passar um café

fica mais um pouco, é cedo
você não precisa ir agora
com tanta coisa pra gente ainda 
com tanta coisa pra gente viver

fica mais... só um pouco mais
vou colocar uma música pra tocar
todas aquelas dos dias bons 
que sempre tivemos

fica sim...
coloquei até um leite pra ferver
tem pão quentinho na mesa te esperando
tem toalha nova se quiser tomar um banho
tem lençol cheiroso dobrado na cama

fica só mais um pouco
pelo menos por hoje
amanhã a gente continua
pra viver um dia lindo de novo
tudo bem a tua solidão
mas fica sim...
fica mais um pouco

instruções para um bom uso do teu facão

vou te dar uma ideia que recomendo fortemente que ponha em prática:

pega o facão que tu usou para cutilar minhas irmãs
então o pousa sobre a mesa à tua frente, assim à mão
baixa então as tuas calças
cospe na tua mão não dominante (tanto faz se tu é canhoto ou destro)
e te excita pra que esse teu pau se projete para frente
e assim fique mais fácil e preciso o serviço
e não tenha perigo de tu errar o golpe
que farás em seguida rápido e sem pensar

e te ordeno que não desmaie
não antes de tu por a peça à boca 
e a engula num movimento compulsivo
de um só gole
e eu fico aqui na torcida, rezando para que tu se engasgue
e se sufoque com tua própria carne imunda

por todas nós...
.
.
.
.
e se não for suficiente...
por que o senhor não cata esse revólver
que tão bem forjou
e enfia uma bala na tua própria têmpora?