terça-feira, 15 de julho de 2014

Vice-versa



Há um vice-versa em nossos passos:
Se dançarmos juntos, nunca dançaríamos.
Digo "direita" e vou para a direita,
E você, exatamente, também.
Mas a sua é a minha esquerda,
e cada um 
só 
segue a si mesmo.

Não nos vemos mais.
E quando sim, é como um espelho
Em que nos vemos tão iguais,
Mas ao mesmo tempo tão inversos:
Abro minha mão direita e te mostro minha palma...
O que vejo é a tua esquerda aberta
E isso me lembra que sou canhoto,
Enquanto eu sempre te vi escrevendo com a sua destra.

Não nos encostamos mais.
E se eu te toco,
Sinto um gelado na minha pele:
Encostei num vidro...
E eu me toco
Que estou diante do liso do espelho
E eu frio.

Não tem ninguém do outro lado,
Só você.

Olhar para si mesmo


A pele é opaca
(só descobrimos o vermelho embaixo entre um corte e um choro),
Mas é tão constantemente vista,
Tão continuamente pegada,
Por si mesma direto sem parar,
Que se embaça,
Esfumaça
E some.
Não conseguimos mais nos ver.

Alguém a nós nos aponta.
A pele ganha contorno,
Forma que ganha forma,
Tinta, traços, preenchimento, quadro.
E olhar para si mesmo
É olhar de fora.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Mulheres...

Gustav Klimt, "Death and Life" (1910-1915), óleo sobre tela


Judas se matou.
Mas Judas não "se nascera"
Nem tinha "parido a si mesmo"
Nem Jesus
Que foi morto, sepultado e ressucitou-se
"Nasceu-se" ou "Pariu-se" no mundo.

Dependemos das mulheres para existir
Até gramaticalmente.