terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Minha terra de areias

Está acontecendo ultimamente:
Quando fecho os olhos, estou no alto de uma falésia.
Vejo a praia no horário do pôr do sol.
O vento vem do leste... em meu rosto.
Sei a direção, porque atrás de mim o sol desce,
O céu se avermelha,
A lua adiante se abrilhanta, sobe e cresce.

Minha terra de areias
E de águas quentes...

Por que aparece em meus olhos frios?
Se eu sempre reclamava de teu calor impassível, e de tuas águas salobras, e de teu povo endurecido?
Queimo minha língua por todas as vezes que te maldisse.
Mas como é bom que eu estava enganado
Quando havia dito que a tua falta não sentiria...

Pois bem, estou aqui,
Querendo te sentir ao meu redor.

domingo, 30 de outubro de 2016

Hoje eu acordei querendo abraçar você

Hoje eu acordei querendo abraçar você
E deixar minha cabeça pousada no seu ombro
Comigo me perguntando bobo se ela não está pesando
E ficar assim pertinho ouvindo sua respiração
Com a minha
Sentindo os seus cabelos
Que de leve sempre me fazem cócegas no nariz

Não dói quando o meu braço fica doendo
Depois de não sei quanto tempo
Comigo deitado de lado, sobre ele, de frente para você
Com o meu outro braço, num abraço, sobre o seu tronco
A minha mão, livre, sobre o seu peito
A minha perna, solta, sobre a sua coxa
O meu corpo, sólido, junto ao seu...

Seria bom se toda manhã começasse assim
E assim, devagarzinho, voltássemos a dormir
Naquela meia hora em que abrimos os olhos e já passou
E reclamamos juntos do Tempo
Pedindo ao mundo só mais 5 minutos.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Sentido da vida

      A palavra “sentido” felizmente tem dois sentidos: “significado” e “direção”. Acho que uma das perguntas mais sem resposta é aquela “Qual é o sentido da vida?”. Bem, é sem resposta quando você procura por um significado da vida. Qual é o significado da vida? Acho difícil porque o significado é uma outra coisa, paralela, que representa, que pode ficar no lugar do que ele, o significado, justamente significa. “Qual o significado da palavra ‘girassol’? É essa outra coisa aqui que eu vejo, que é amarela e marrom, aqui plantada na terra.” 
  O significado da vida... O que é essa outra coisa que representa a vida? Muitos dão as suas respostas, falando de coisas muito profundas e pouco claras, coisas impalpáveis e muito distantes, respostas tão arbitrárias e próprias quanto são as suas vidas. 
  Qual é o significado da minha vida? Eu não sei, porque eu simplesmente a vivo. O significado da minha vida é vivê-la, viver a minha e não a de outra pessoa. Viver, tão cheio de potencialidades e ao mesmo tempo tão frágil, é o que me resta fazer, pois este corpo vivo sou eu.
  Viver, sim... mas “Como viver?”. Por isso talvez seja mais produtivo se eu me perguntar pelo “sentido da vida” entendendo o sentido como “direção”... tal como a gente perguntaria “Qual o sentido dessa estrada, qual é o rumo dela?”. Escolher um rumo também não é fácil, mas é coisa que dá para ser feita abrindo os olhos e olhando ao redor. Ou, se a estrada está muito incerta, procurando dicas em mapas ou pistas com os outros. Por isso eu não me escavo pelas profundezas do meu ser. Não faço mineração para encontrar o tal sentido oculto da vida, nesse claustrofóbico empenho de buscar algo escondido sob a lama do passado. 
  Como o mestre Caeiro, sou andarilho. Prefiro ver o que tenho agora e caminhar adiante de olhos abertos. Quando quero ver o sol nascer, me volto para o leste, e ele brilha de manhã. Quando não, me volto para oeste e vejo o vermelho do poente. À noite, porque há sempre momentos de escuridão, olho o Cruzeiro do Sul ao sul e sigo, e se quero um norte, sei que o sul não é o que quero, e não paro de caminhar e tento ver o que tenho ao redor. Minha vida é trilhar, meu sentido é o horizonte.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Hoje eu não quero te ver

Hoje eu não quero te ver,
Porque hoje eu não te quero com os olhos.
Olhar a água só faz a sede aumentar...

Eu não quero te ver hoje,
Porque hoje eu te quero com a minha boca.
E não é para falar...

Não quero te ver de frente,
Porque hoje, meu amor,
Eu quero as suas costas olhando pra mim...

Hoje eu te quero com as mãos,
Com as minhas mãos na sua cintura
E a sua colada na minha...

Hoje eu quero o seu corpo, o seu todo, o seu gosto.

domingo, 25 de setembro de 2016

Ela começou me dando um soco...


Supercílio direito cortado,
Olho esquerdo muito roxo, na verdade quase preto.
Nariz também quase, bem por pouco, quebrado. 
E com um bloco de sangue coagulado
na narina direita. A narina esquerda 
está estranhamente ralada e arde quando nela eu encosto.
Lábio superior inchado, latejando com um rasgo no canto direito. 
Também à direita,
dentes da frente frouxos em frangalhos.
Lábio inferior, por fora sem danos, mas por dentro
sinto gosto de sangue ao passar a língua.

Foi assim que fiquei...
Quando a saudade bateu.

domingo, 18 de setembro de 2016

Pensar que te vejo

Penso em você, porque não te vejo,
Porque se eu te visse,
Não com o pensamento,
Mas com os olhos,
Eu não teria que pensar em você.

Eu teria você em minha frente
E seria isso simplesmente:
As suas mãos tocando as minhas,
O seu rosto junto ao meu,
O seu cheiro me preenchendo a respiração,
Que eu ouviria acelerar pouco a pouco,
Aumentando junto com o calor das nossas peles.

Mas não te vejo,
Então, cego, só me resta pensar que te vejo.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Escrever cansa

     Eu sempre me perguntava: “Por que me canso tanto quando escrevo?”. Um dia, garimpando livros num sebo, encontrei a resposta em um livro de prosa poética. 
  A orelha do livro contava que era de um poeta mineiro, advogado, que tinha feito sua coletânea após ganhar, não sei como, alguns concursos literários. Mas era uma série de textos inconjuntos, sem uma linha temática clara ou estilo bem definido. Dava para ver que eram essas coisas que a gente pensa e escreve quando na verdade tinha algo mais importante para fazer. Eram textos desses que saem como distração, poesias dessas para procrastinar, drogas pesadas contra o tédio, armas para matar o tempo. 
       A resposta, eu dizia, estava na última página, meio amarelada, meio solta, que eu criminosamente arranquei, dobrei e coloquei no bolso. Por que eu não comprei o livro? Não sou crítico literário, mas ele era um “poeta menor”, como dizem os críticos. De toda a coletânea, para mim só se salvava um trecho de fala de uma personagem – uma psicanalista metida a escritora, em uma crônica metaliterária – mais dois poeminhas e a tal última página. 
  O trecho de fala da psicanalista inventada é interessante, porque com ela o advogado-poeta tratou da relação que muitas pessoas estabeleciam com os seus textos. Também achei curioso porque ele criou uma psicanalista que não acreditava que a sua escrita revela o seu inconsciente  por mais inventada que a coisa toda seja. E o trecho na verdade revela uma certa influência do João Cabral de Melo Neto sobre o cara, além da explícita referência a Fernando Pessoa:

“Às vezes um texto é apenas um texto. Se você, meu bem, me lê para descobrir quem sou, você está lendo errado. Não faça como meus pacientes, que me lêem tentando escavar meu inconsciente, que sofregamente meus textos vasculham para em vendeta me analisar. Pobres de si, não sabem que uma escritora sou, uma poeta, uma fingidora, tal como Pessoa tantos foi e tantos se fez e se mostrou. Minha escrita não revela quem sou, ela só se revela a si mesma. Quem eu sou, sou ali onde eu me calo e no meu silêncio eu sou dona do que falo. Aquilo que você lê quando você me lê diz mais sobre você do que sobre mim. As páginas do meu caderno são como um bloco bruto de mármore, que vou esculpindo linha a linha. E diante delas eu suo e as mãos calejo. O que eu escrevo é o que eu penso, mas o que eu penso não é onde eu existo.”
  Consegui citar esse trecho tal qual aparece porque também furtivamente arranquei esta página. Na verdade não arranquei. Ela já estava meio solta... e era justo. O dono do sebo já me vendera um volume do Ficciones do Borges faltando páginas. Enfim, só a destaquei... para aqui enfim destacá-la.
  O primeiro poema aqui cito não porque o destaquei do livro  o dono do sebo estava passando pelas prateleiras , mas porque sempre me lembro quando encontro pessoas novas que me lembram velhos conhecidos: 

“Sei que Deus é criativo, mas começo a ver caras repetidas...” 

  O segundo poeminha, vale destacar, é chamativo pela pretensão do poeta a Criador e pela intenção concretista:

“De 
         linhas
tortas 
             e 
palavras 
              retas:
Esse é o caminho do poeta.”

  Mas a tal última página, eu dizia, e finalmente digo, apesar de amarelada pelo tempo, ela vinha do topo até embaixo toda em branco. A minha resposta, o das linhas tortas escreveu no rodapé, no final do final do livro, onde não caberia mais nada a se dizer em seguida. 
Quando li suas últimas palavras, eu imaginei esse cara entrando sozinho na casa de Astérion: o labirinto. Mas não levando novelo de linha e espada, mas apenas levando, como esses que acreditam que podem mudar o mundo com as palavras, somente papel e caneta. Quando percebeu que não conseguiria mais sair dali e que palavras não parariam um minotauro branco de meia tonelada, escreveu as palavras derradeiras e as arremessou por cima da murada. 
  A resposta para aquela minha pergunta, eu dizia, eram como um bilhete achado no bolso de um náufrago morto na beira da praia... Que eu achei, li e rasguei para mim:

“Desisto. Escrever cansa. Uma página em branco faz uma força tremenda para se manter em branco. Eu sou mortal, a página em branco não. Eu tenho fome, sede e sono, ela não tem. As linhas iniciais são as mais duras... e eu não tenho mais força para as próximas. Agora eu entendo: as linhas em branco são feitas de nada: uma substância absolutamente coesa. Mergulhei e nadei nesse nada e acabei aqui, jogado-morto ao rodapé, destituído, sem mais nenhum fôlego para continuar.”

  Sim, poeta menor, escrever cansa.

domingo, 28 de agosto de 2016

Quando eu escrevo

Quando eu escrevo, 
Não escrevo para ninguém. 
Não escrevo para você, para ela ou para ele. 
Não dou indiretas, não faço dedicatórias. 

Quando eu escrevo, é para falar de uma coisa que me acontece.
Ou de algo que ocorreu. 
Sim, bem pode ser sobre uma experiência contigo. 
Boa ou ruim.
Ou sobre algo que você me disse,
Ou que outros disseram e eu ouvi.
Mas não vai ser sobre você. 
Nem sobre mim.

Quando eu escrevo, escrevo pelo jogo: 
Encaixar palavras
de um certo jeito diverso
para sentir como elas se equilibram em mim.
Ou para deliciosamente ver como elas te desequilibram...

Quando eu escrevo, escrevo pelo experimento: 
O que me acontece irá mudar ao se transmutar em texto? 
O que você não me dirá quando o ler e me ver? 
Iremos nos olhar de um outro jeito, incerto, diverso?

Quando eu escrevo, escrevo pela perda de tempo: 
Eu deveria estar trabalhando...
Mas estou aqui brincando com a página,
Inventando com ela fingidos sentimentos e falsas impressões.

Quando eu escrevo... 
Eu estava pensando em você?
Ou seria em outra pessoa? 
Talvez em mim mesmo? 
Em ninguém talvez... 
Ou em todos nós.

Como não sei pintar, 
Escrevo o que vejo.
Se, no que descrevo, 
Você se vê,
É porque nós estamos olhando para o mesmo lado 
Ou um para o outro.
E, se for assim,
Que nesse encontro possamos sorrir.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Reticências XII – Ela...

Não se engane.
Eu vejo como você me vê:

O que você só vê
nos meus,
são os teus olhos.

O que você só ouve
nas minhas,
são as tuas palavras.

O que você só sente
no meu,
é o seu corpo.

O que você só quer
no meu,
é o seu próprio amor.

E sim, nisso você sempre se mostrou muito bom: 
maquinar, planejar, calcular...
Muito bem:
Pois receba aqui as minhas reticências...


~~FIM~~

Reticências XI

Sim, meu amor, mas eu preciso fazer mais coisas
Que eu não preciso fazer.
E eu vou embora e você não vem.
Já disse.
E eu não preciso te amar.
Amar não é coisa que se faz por dever.

Você não é nenhuma divindade,
Dessas que se amam à distância.
Então de mim não espere nenhuma súplica.
Porque de você não espero menos que simples reticências.

Reticências X – Ela...

Ainda que me tendo ao teu lado,
Você
Olha esse teto sem respostas
No alto
Escrevendo qualquer nada nessa página em branco de muitas linhas.

E você então me disse:
“Vou embora e você não vem!
Que tipo de história é essa a nossa?
De ponto final ou de reticências?”

Vejo que as linhas da nossa história
São como as linhas das nossas mãos:
Curtas, tortas e sem qualquer significado.

Porque um amor que se inventa, meu amor,
Recebe sempre um ponto final na última página.

Fogueiras, águas, poeira

            Tudo é feito as águas do rio Heráclito... Afinal, o que é permanente nessa vida? O que me parece fatal e sério agora, passa e perde o valor – cedo ou tarde.  Aquilo que trazia medo fica pequeno e some, simples sombra. Parece que tudo é água que escorre ou seca, poeira sobre a mesa e um sopro. Há uma terra por sobre onde esse rio corre? Há uma mesa por sobre onde essa poeira junta? Há isso que sempre esteve e que é apesar de?
            Apesar do nome que lhe deem ou do nome que eu lhe dê... isso que permanece, nisso posso me apoiar, posso ver, sentir, tocar? E se pergunto é porque não sei o que é. Sei que é tudo o que não vejo, não sinto e não toco, porque o que vejo e sinto e toco passa e vai, feito vela pela noite. E isso que parece a terra sob a água, não sei o que é, mas ainda assim a isto me refiro, buscando palavras que apenas dizem o que parece ser.
         Essa mesa empoeirada cuja planura não tem forma, porque palavras não poderão descrevê-la, porque palavras são artifício nosso, porque são fogueiras que mantemos acesas não deixando de lhes deitar lenha, isso que não posso ver porque o que vejo vejo com os olhos e fecho os olhos como os abro e as coisas aparecem e somem e se acendem e se apagam e tudo vai como vem, isso que não posso sentir porque sentir é tudo que me resta se nada me sobra e ainda assim esse sentir passa e muda, isso que não posso tocar porque só tenho pele e tendões e nervos e vísceras, isso é só vazio que circunda e  preenche, ponto de onde posso tudo olhar e ver tudo ir, tudo rodar, tudo escorrer, janela de onde vejo a chuva cair e evaporar.
            Isso são fogueiras, águas, poeira.

domingo, 21 de agosto de 2016

Pensar em você

Pensar em você.
O dia todo pensar em você...

Mas não que eu fique pensando em você
Como quem se debruça sobre um problema. 
Eu penso em você, 
Todos os dias eu penso em você, porque você...
Quer dizer... não é que eu pense em você!
Você se pensa em mim! 
Quer dizer, aqui... aparece!
Eu te vejo, sinto seu cheiro, a textura da sua pele...
Seu gosto...
Seu delicioso gosto mordiscando meus lábios daquele jeito como naquele dia...

Mas não é bem assim, exatamente, "Eu te vejo", literalmente.
Eu te vejo assim...
Vejo sem ver, vejo por querer, vejo por pensar...
Em você.

Mas não é assim, propriamente dizendo, de eu pensar em você.
É que você me acontece!
Não, não, não é complicado, é bem simples! Complicado é dizer!
Acontece de eu pensar em você.
Quer dizer...
"Pensar em você. O dia todo pensar em você." assim pensando sem pensar.

Acontece:
É como o vento que entra pela janela.

domingo, 31 de julho de 2016

Reticências

I

Eu estava calado, não escrevia.
Meu silêncio me deixava seguro,
De mim, nenhuma poesia.
Porque o que tenho a dizer agora
Vem de uma ilusão
Perigosamente verdadeira.

Mas você tinha que me instar à palavra!...
Mas tinha que pôr em minha mão esta arma!...
...tinha que pôr esses seus olhos em mim...

Vou falar nada, porém.
Pois vai ser explosivo escrever sobre...
esse... essas...
— Não direi.
Não quero demolir nossas...
Não.
Não direi mais nada.



II – Ela...

Eu vejo teus olhos me vendo
E percebo cada olhar teu.
Então leio o que tu me diz
Nas reticências dos teus sorrisos:
São pensamentos que flutuam
(escapa um aqui, escapa outro ali),
mas que não ousa pronunciar.

Eu te agradeço por se calar
e apenas sorrir daí,
porque daqui
eu não saberia não responder à altura...
E veríamos muito mais do que os nossos olhos se vendo...

E ambos não saberíamos mais o que dizer ou olhar.



III

Ouço o que eu estou pensando que você está pensando de mim...
Mas eu realmente – sei muito bem – não ouço o que você pensa aí.
A não ser... que você fale,
Lance-me aqui, com o seu pensamento.

Realmente, então, o que eu ouço é o que eu estou pensando de mim
Na sua voz imaginada aqui comigo,
Que ecoa em algum lugar entre as minhas uma boca e duas orelhas.

É...
Não falar contigo me faz falar demais...



IV – Ela...

Saiba ficar calado
Cada vez um pouco mais
Aqui ao meu lado...

Lê os meus lábios
Que te deixo parados
Falando de beijos...

Chega mais perto...
Ouve aqui baixinho:
Os meus olhos não são a porta da minha alma.
(Eu não tenho alma)
Eles são as comportas do meu corpo,
(Que é só o que eu tenho)
E ele sua, e ele sangra,
E ele molha, e ele suja.

Vê:
Os meus olhos te dizem
Também um pouco mais
Sobre todo o meu desejo
E eu os fecho pouco a pouco
Pois o querer não dura muito tempo...

Então saiba ficar calado
E mergulha um tanto mais
Aqui no meu lago...
Agora bebe os meus lábios
Porque eu te quero afogado
E sem palavras
Só beijos...



V

Eu sei ficar calado,
Mas a sua boca chama a minha ao ato:
Então falo,
Pedindo também o seu beijo.

Tento ler o seu olhar
Mas, analfabeto,
Só o vejo.
E vejo:
Como às vezes me olha,
Como às vezes se esquiva,
E como às vezes...
                                  sequer
                                                 olha.
E eu não entendo se é fúria ou se é desejo.

E quando você não me vê
Ou por vezes se esquiva
Ou distante me olha,
Ouço você me dizendo:
Me decifra ou te devoro. Sem demora!
Mas você de fato não disse nada...
E eu acabo dando mil respostas à pergunta nenhuma
E você me devora.

É...
Quando tudo não é dito, pode tudo ser ouvido.
E eu, um doente dos olhos,
Imagino de tudo do que nada sei.

Não sei ficar calado...
Acontece de minha alma ser toda feita de palavras.



VI – Ela...

Detesto você me trazer à fala.
Não vê que o nosso elo é de silêncio?
Você fala muito e isso me faz falar
Para que você se cale.
...
...
...

Sim...
É bem melhor assim...
Quando as nossas bocas se juntam
Com nenhum espaço às palavras
E os nossos olhos fechados
Nos fazem ver a nossa pele:
Cintura com cintura
E os meus seios
E as suas mãos
E os nossos beijos.


VII

Se te penso, você não ouve.
Se te amo, você não vê.
O amor está aqui dentro? Ou aí?
Nada.
Somos pele, então carne e ossos.
No peito, coração é só isso que bate,
...Às vezes mais rápido quando te vejo.
E dentro dele só há sangue em fluxo.
...Às vezes mais lento quando te deixo.

Vê?
Também não tenho alma
E sou só corpo.
Não sou um vaso vazio,
Mas um bloco vivo.
E digo:
Eu sou isto que olhas e vê passar.
Eu sou esse que fala e te faz falar.



VIII – Ela...

Pois eu te digo:
Suas palavras não te preenchem a alma que sequer tem.
Elas

Te levam
De mim
Que estou
Aqui
Na sua frente.



IX

Vejo que amanhã olharei seus olhos
E com eles,
Reflexos,
Eu verei meu rosto.
E o meu rosto, neles, me parecerá terrível.



X – Ela...

Ainda que me tendo ao teu lado
Você

Olha esse teto sem respostas
No alto
Escrevendo qualquer nada nessa página em branco de muitas linhas.

E você então me disse:
“Vou embora e você não vem!
Que tipo de história é essa a nossa?
De ponto final ou de reticências?”

Vejo que as linhas da nossa história
São como as linhas das nossas mãos:
Curtas, tortas e sem qualquer significado.

Porque um amor que se inventa, meu amor,
Recebe sempre um ponto final na última página.



XI

Sim, meu amor, mas eu preciso fazer mais coisas
Que eu não preciso fazer.
E eu vou embora e você não vem.
Já disse.
E eu não preciso te amar.
Amar não é coisa que se faz por dever.

Você não é nenhuma divindade,
Dessas que se amam à distância.
Então de mim não espere nenhuma súplica.
Porque de você não espero menos que simples reticências.



XII – Ela...

Não se engane.
Eu vejo como você me vê:

O que você só vê
nos meus,
são os teus olhos.

O que você só ouve
nas minhas,
são as tuas palavras.

O que você só sente
no meu,
é o seu corpo.

O que você só quer
no meu,
é o seu próprio amor.

E sim, nisso você sempre se mostrou muito bom:
maquinar, planejar, calcular...
Muito bem:
Pois receba aqui as minhas reticências...


~~FIM~~

Umbelino Neto
31 de julho, 2016.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Dar mais do que receber

No livro “Ciência e Comportamento Humano”, B. F. Skinner conta uma prática cultural que era comum nos veleiros do século XVIII.  “Os marinheiros se divertiam atando pela mão esquerda diversos meninos ou rapazes a um mastro com um anel e deixando livre a mão direita de cada um. Dava-se a cada menino uma vara ou um chicote e se dizia que batesse no menino da frente sempre que sentisse que o menino de trás lhe batesse. Começava-se o jogo cutucando levemente um dos meninos. Esse menino então cutucava o menino da frente, que por seu turno cutucava o próximo, e assim por diante. Ainda que fosse claramente de interesse do grupo que todos os golpes fossem leves, o resultado inevitável era um espancamento furioso.” (Skinner, 1953/2003, p. 338)

Moral da história: o ser humano é muito generoso. Quando se trata de dar pancada, a gente sempre quer dar mais do que recebe.

Se o amor fosse uma estrada

Richard Thorn - The River Road















Se o amor fosse uma estrada
Dizer: "J ama M"
Seria o mesmo que
Dizer: "M ama J"

Mas é um rio
E essas águas descem numa só direção...

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Reticências IX



Vejo que amanhã olharei seus olhos
E com eles,
Reflexos,
Eu verei meu rosto.
E o meu rosto neles me parecerá terrível.

Reticências VIII – Ela...

Pois eu te digo:
Suas palavras não te preenchem a alma que sequer tem.
Elas
Te levam
De mim
Que estou 
Aqui
Na sua frente.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Difícil é bom?



        Existe uma regra que assim diz: “Se é difícil, então é bom.”, ou “Uma coisa difícil é melhor do que uma coisa fácil.”, ou ainda “Uma coisa fácil vale menos que uma coisa difícil.”, e também “Se é fácil, não é bom.”. Bom, eu digo que dificilmente isso é assim.
        Eu poderia começar agora a fazer uma lista de coisas boas que são fáceis e de coisas difíceis que não são boas. Mas fazer isso para mim seria difícil, logo, não seria bom. É mais fácil dizer que isso é assim e pronto, e que eu estou certo e basta você concordar, dizendo “Sim, é verdade”. Se você concordar, pode pensar exemplos para confirmar, o que para mim é melhor, pois me pouparia o trabalho de continuar falando sobre o assunto. Mas se você não concordar, vai pensar seus contra-exemplos para rebater, o que para mim é difícil de ler e nada bom de escutar. Seus contra-exemplos me colocariam o difícil trabalho de ou (1) discordar, procurar argumentos melhores e bons exemplos para rebater os seus, e assim mostrar que eu sei falar difícil e sou bom de raciocínio; ou (2) concordar com a sua discordância, acatar seus argumentos como melhores e admitir seus contra-exemplos como bons, mostrando que o que eu dissera, além de difícil, era pior, pois o que você disse era mais fácil de entender e melhor. De qualquer modo, (1) e (2) são coisas difíceis e que não são boas. (1) porque demanda muito tempo, para pouco retorno – será mesmo que essa discussão vai mudar alguma coisa na nossa vida?; (2) porque pede que eu engula meu orgulho diante de seus argumentos sensacionais – e você teria que bater nas minhas costas para que eu não me engasgasse com essa coisa difícil presa na minha garganta, o que para mim não ia pegar muito bem.
        Bem, como você acaba de ver acima, eu acabei fazendo uma listinha, (talvez [e propositadamente]) difícil de ler, de coisas difíceis que não são boas e coisas boas que não são difíceis. É para você ver que é mais fácil concordar logo comigo e nos poupar de continuar com esse texto difícil e ruim.

Umbelino Neto, 13.04.2016