domingo, 28 de agosto de 2016

Quando eu escrevo

Quando eu escrevo, 
Não escrevo para ninguém. 
Não escrevo para você, para ela ou para ele. 
Não dou indiretas, não faço dedicatórias. 

Quando eu escrevo, é para falar de uma coisa que me acontece.
Ou de algo que ocorreu. 
Sim, bem pode ser sobre uma experiência contigo. 
Boa ou ruim.
Ou sobre algo que você me disse,
Ou que outros disseram e eu ouvi.
Mas não vai ser sobre você. 
Nem sobre mim.

Quando eu escrevo, escrevo pelo jogo: 
Encaixar palavras
de um certo jeito diverso
para sentir como elas se equilibram em mim.
Ou para deliciosamente ver como elas te desequilibram...

Quando eu escrevo, escrevo pelo experimento: 
O que me acontece irá mudar ao se transmutar em texto? 
O que você não me dirá quando o ler e me ver? 
Iremos nos olhar de um outro jeito, incerto, diverso?

Quando eu escrevo, escrevo pela perda de tempo: 
Eu deveria estar trabalhando...
Mas estou aqui brincando com a página,
Inventando com ela fingidos sentimentos e falsas impressões.

Quando eu escrevo... 
Eu estava pensando em você?
Ou seria em outra pessoa? 
Talvez em mim mesmo? 
Em ninguém talvez... 
Ou em todos nós.

Como não sei pintar, 
Escrevo o que vejo.
Se, no que descrevo, 
Você se vê,
É porque nós estamos olhando para o mesmo lado 
Ou um para o outro.
E, se for assim,
Que nesse encontro possamos sorrir.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Reticências XII – Ela...

Não se engane.
Eu vejo como você me vê:

O que você só vê
nos meus,
são os teus olhos.

O que você só ouve
nas minhas,
são as tuas palavras.

O que você só sente
no meu,
é o seu corpo.

O que você só quer
no meu,
é o seu próprio amor.

E sim, nisso você sempre se mostrou muito bom: 
maquinar, planejar, calcular...
Muito bem:
Pois receba aqui as minhas reticências...


~~FIM~~

Reticências XI

Sim, meu amor, mas eu preciso fazer mais coisas
Que eu não preciso fazer.
E eu vou embora e você não vem.
Já disse.
E eu não preciso te amar.
Amar não é coisa que se faz por dever.

Você não é nenhuma divindade,
Dessas que se amam à distância.
Então de mim não espere nenhuma súplica.
Porque de você não espero menos que simples reticências.

Reticências X – Ela...

Ainda que me tendo ao teu lado,
Você
Olha esse teto sem respostas
No alto
Escrevendo qualquer nada nessa página em branco de muitas linhas.

E você então me disse:
“Vou embora e você não vem!
Que tipo de história é essa a nossa?
De ponto final ou de reticências?”

Vejo que as linhas da nossa história
São como as linhas das nossas mãos:
Curtas, tortas e sem qualquer significado.

Porque um amor que se inventa, meu amor,
Recebe sempre um ponto final na última página.

Fogueiras, águas, poeira

            Tudo é feito as águas do rio Heráclito... Afinal, o que é permanente nessa vida? O que me parece fatal e sério agora, passa e perde o valor – cedo ou tarde.  Aquilo que trazia medo fica pequeno e some, simples sombra. Parece que tudo é água que escorre ou seca, poeira sobre a mesa e um sopro. Há uma terra por sobre onde esse rio corre? Há uma mesa por sobre onde essa poeira junta? Há isso que sempre esteve e que é apesar de?
            Apesar do nome que lhe deem ou do nome que eu lhe dê... isso que permanece, nisso posso me apoiar, posso ver, sentir, tocar? E se pergunto é porque não sei o que é. Sei que é tudo o que não vejo, não sinto e não toco, porque o que vejo e sinto e toco passa e vai, feito vela pela noite. E isso que parece a terra sob a água, não sei o que é, mas ainda assim a isto me refiro, buscando palavras que apenas dizem o que parece ser.
         Essa mesa empoeirada cuja planura não tem forma, porque palavras não poderão descrevê-la, porque palavras são artifício nosso, porque são fogueiras que mantemos acesas não deixando de lhes deitar lenha, isso que não posso ver porque o que vejo vejo com os olhos e fecho os olhos como os abro e as coisas aparecem e somem e se acendem e se apagam e tudo vai como vem, isso que não posso sentir porque sentir é tudo que me resta se nada me sobra e ainda assim esse sentir passa e muda, isso que não posso tocar porque só tenho pele e tendões e nervos e vísceras, isso é só vazio que circunda e  preenche, ponto de onde posso tudo olhar e ver tudo ir, tudo rodar, tudo escorrer, janela de onde vejo a chuva cair e evaporar.
            Isso são fogueiras, águas, poeira.

domingo, 21 de agosto de 2016

Pensar em você

Pensar em você.
O dia todo pensar em você...

Mas não que eu fique pensando em você
Como quem se debruça sobre um problema. 
Eu penso em você, 
Todos os dias eu penso em você, porque você...
Quer dizer... não é que eu pense em você!
Você se pensa em mim! 
Quer dizer, aqui... aparece!
Eu te vejo, sinto seu cheiro, a textura da sua pele...
Seu gosto...
Seu delicioso gosto mordiscando meus lábios daquele jeito como naquele dia...

Mas não é bem assim, exatamente, "Eu te vejo", literalmente.
Eu te vejo assim...
Vejo sem ver, vejo por querer, vejo por pensar...
Em você.

Mas não é assim, propriamente dizendo, de eu pensar em você.
É que você me acontece!
Não, não, não é complicado, é bem simples! Complicado é dizer!
Acontece de eu pensar em você.
Quer dizer...
"Pensar em você. O dia todo pensar em você." assim pensando sem pensar.

Acontece:
É como o vento que entra pela janela.