quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Nossa paisagem é toda ela feita de curvas

Thomas C. Fedro - Lovers



Nossa paisagem é toda ela feita de curvas:
concavidades, convexidades, recuos, saliências.
É uma paisagem para ser vista com a língua.
E para uma língua que caça um encaixe:
Teus lábios...
E provar o molhado, e sentir o calor e saborear o que for...
Liso...
Áspero...
Liso...
           
Sem pressa...
Afinar os instrumentos...
Tirar música de um bom dedilhado...
E correr todo o corpo,
Teclar,
Palmo a palmo, um de cada vez
Então um traço, um arrasto,
...um arrrrrranhado.

Da música ao rumor, do rumor ao suspiro, do suspiro aos choques.
Já não existe mais calma: há pressa.

São voltas-revoltas, ventos-movimentos, fragores-fulgores.
Sussurros, sibilos, estalos.
Soluços, bramidos, chiados.
Tremores.

E o horizonte se abre
Nuvens flutuam
Silêncio.

Estou doente



Estou doente:
Fico te vendo em todo lugar para onde eu olho e não te vejo.
Doente,
Porque até os meus olhos ficam pensando em você...
Doente dos olhos!
Eu vejo o seu rosto em relance
Em cada relance de rosto,
Mas os olhos não foram feitos para isso.

Não se pode amar o que se vê só de olhos fechados.

Reticências VII



Se te penso, você não ouve.
Se te amo, você não vê.
O amor está aqui dentro? Ou aí?
Nada.
Somos pele, então carne e ossos.
No peito, coração é só isso que bate,
Às vezes mais rápido quando te vejo.
Mas dentro dele só há sangue em fluxo,
Às vezes mais lento quando te deixo.

Vê?
Também não tenho alma
E sou só corpo.
Não sou um vaso vazio,
Mas um bloco vivo.
E digo:
Eu sou isto que olhas e vê passar.
Eu sou esse que fala e te faz falar.