domingo, 25 de setembro de 2016

Ela começou me dando um soco...


Supercílio direito cortado,
Olho esquerdo muito roxo, na verdade quase preto.
Nariz também quase, bem por pouco, quebrado. 
E com um bloco de sangue coagulado
na narina direita. A narina esquerda 
está estranhamente ralada e arde quando nela eu encosto.
Lábio superior inchado, latejando com um rasgo no canto direito. 
Também à direita,
dentes da frente frouxos em frangalhos.
Lábio inferior, por fora sem danos, mas por dentro
sinto gosto de sangue ao passar a língua.

Foi assim que fiquei...
Quando a saudade bateu.

domingo, 18 de setembro de 2016

Pensar que te vejo

Penso em você, porque não te vejo,
Porque se eu te visse,
Não com o pensamento,
Mas com os olhos,
Eu não teria que pensar em você.

Eu teria você em minha frente
E seria isso simplesmente:
As suas mãos tocando as minhas,
O seu rosto junto ao meu,
O seu cheiro me preenchendo a respiração,
Que eu ouviria acelerar pouco a pouco,
Aumentando junto com o calor das nossas peles.

Mas não te vejo,
Então, cego, só me resta pensar que te vejo.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Escrever cansa

     Eu sempre me perguntava: “Por que me canso tanto quando escrevo?”. Um dia, garimpando livros num sebo, encontrei a resposta em um livro de prosa poética. 
  A orelha do livro contava que era de um poeta mineiro, advogado, que tinha feito sua coletânea após ganhar, não sei como, alguns concursos literários. Mas era uma série de textos inconjuntos, sem uma linha temática clara ou estilo bem definido. Dava para ver que eram essas coisas que a gente pensa e escreve quando na verdade tinha algo mais importante para fazer. Eram textos desses que saem como distração, poesias dessas para procrastinar, drogas pesadas contra o tédio, armas para matar o tempo. 
       A resposta, eu dizia, estava na última página, meio amarelada, meio solta, que eu criminosamente arranquei, dobrei e coloquei no bolso. Por que eu não comprei o livro? Não sou crítico literário, mas ele era um “poeta menor”, como dizem os críticos. De toda a coletânea, para mim só se salvava um trecho de fala de uma personagem – uma psicanalista metida a escritora, em uma crônica metaliterária – mais dois poeminhas e a tal última página. 
  O trecho de fala da psicanalista inventada é interessante, porque com ela o advogado-poeta tratou da relação que muitas pessoas estabeleciam com os seus textos. Também achei curioso porque ele criou uma psicanalista que não acreditava que a sua escrita revela o seu inconsciente  por mais inventada que a coisa toda seja. E o trecho na verdade revela uma certa influência do João Cabral de Melo Neto sobre o cara, além da explícita referência a Fernando Pessoa:

“Às vezes um texto é apenas um texto. Se você, meu bem, me lê para descobrir quem sou, você está lendo errado. Não faça como meus pacientes, que me lêem tentando escavar meu inconsciente, que sofregamente meus textos vasculham para em vendeta me analisar. Pobres de si, não sabem que uma escritora sou, uma poeta, uma fingidora, tal como Pessoa tantos foi e tantos se fez e se mostrou. Minha escrita não revela quem sou, ela só se revela a si mesma. Quem eu sou, sou ali onde eu me calo e no meu silêncio eu sou dona do que falo. Aquilo que você lê quando você me lê diz mais sobre você do que sobre mim. As páginas do meu caderno são como um bloco bruto de mármore, que vou esculpindo linha a linha. E diante delas eu suo e as mãos calejo. O que eu escrevo é o que eu penso, mas o que eu penso não é onde eu existo.”
  Consegui citar esse trecho tal qual aparece porque também furtivamente arranquei esta página. Na verdade não arranquei. Ela já estava meio solta... e era justo. O dono do sebo já me vendera um volume do Ficciones do Borges faltando páginas. Enfim, só a destaquei... para aqui enfim destacá-la.
  O primeiro poema aqui cito não porque o destaquei do livro  o dono do sebo estava passando pelas prateleiras , mas porque sempre me lembro quando encontro pessoas novas que me lembram velhos conhecidos: 

“Sei que Deus é criativo, mas começo a ver caras repetidas...” 

  O segundo poeminha, vale destacar, é chamativo pela pretensão do poeta a Criador e pela intenção concretista:

“De 
         linhas
tortas 
             e 
palavras 
              retas:
Esse é o caminho do poeta.”

  Mas a tal última página, eu dizia, e finalmente digo, apesar de amarelada pelo tempo, ela vinha do topo até embaixo toda em branco. A minha resposta, o das linhas tortas escreveu no rodapé, no final do final do livro, onde não caberia mais nada a se dizer em seguida. 
Quando li suas últimas palavras, eu imaginei esse cara entrando sozinho na casa de Astérion: o labirinto. Mas não levando novelo de linha e espada, mas apenas levando, como esses que acreditam que podem mudar o mundo com as palavras, somente papel e caneta. Quando percebeu que não conseguiria mais sair dali e que palavras não parariam um minotauro branco de meia tonelada, escreveu as palavras derradeiras e as arremessou por cima da murada. 
  A resposta para aquela minha pergunta, eu dizia, eram como um bilhete achado no bolso de um náufrago morto na beira da praia... Que eu achei, li e rasguei para mim:

“Desisto. Escrever cansa. Uma página em branco faz uma força tremenda para se manter em branco. Eu sou mortal, a página em branco não. Eu tenho fome, sede e sono, ela não tem. As linhas iniciais são as mais duras... e eu não tenho mais força para as próximas. Agora eu entendo: as linhas em branco são feitas de nada: uma substância absolutamente coesa. Mergulhei e nadei nesse nada e acabei aqui, jogado-morto ao rodapé, destituído, sem mais nenhum fôlego para continuar.”

  Sim, poeta menor, escrever cansa.