sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

"Ainda me assusta o tanto de cicatrizes que levo no corpo."

Duy Huynh, "Recollections", 2012, acrílico sobre madeira


Ainda me assusta o tanto de cicatrizes que levo no corpo.
É quando eu vejo o quanto já me machuquei.
Mas é que somos feitos de um vidro,
de um vidro bem grosso,
a pele lascada,
que sempre derruba
alguns cacos de si
a cada pancada.

Você se olha assim e parece um boneco torto,
rachado todo,
um quebra-cabeça 
esquisito.
E olha para trás e vê que logo atrás
deixou atrás de si
um monte de cacos.

Então se assusta: "Não vi que tava assim tão quebrado!"
Sim, e você não é mais criança,
e esses cacos,
é você que vai ter que juntar.

Só resta fazer o caminho de volta
caco
a
caco
catando estas migalhas de vidro.
E você anda.
Anda feito João e Maria,
no entanto,
sozinhos,
um sem o outro.
E não adianta chorar.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

O problema da Rita

     A irritação era muita. E a mãe da Rita, mais paciência já não tinha. É que a Ritinha era uma menina toda ralada. Corria a rua, subia árvore, pulava muro. É... até que ela fazia bem as tarefinhas. Com uma ajudinha, ela até que desenrolava, mas era um absurdo ter que mandar tanto, ter que repetir tanto as mesmas coisas, dez milhões de vezes. Essa menina, só na hora do Pica-pau é que parava mesmo! Coisa alguma não era, só podia ser alguma coisa. 
      Na semana seguinte, irritada ainda, a mãe estreou triunfante os comprimidos de Rita...
     Faz dez dias que a Ritazinha não rala nem o joelho. Não há mais irritação.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Trânsito lento

        I. da Silva passava perto da rodoviária de Fortaleza quando no seu pulso o relógio já ia dando umas duas horas. Dirigia lentamente, um carro colado no outro. Só se via um cara correndo lá na frente.
N'é possível, naquele horário, aquele engarrafamento, não fazia sentido. Mas tudo bem. Vidro fechado, ar condicionado, música boa, som alto e o Europe já ia repetindo seu último refrão... “It’s the Final Countdown...Oh... The Final Countdown...”. É... o jeito é deixar o som bem alto pra passar o tempo.
Então ele mal ouviu os tiros de um cara acabando de ser morto ali mesmo do seu lado. Somente no outro dia I. limpou aquele estranho molho ressecado da lataria.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Cuidado com os idiotas



           Os psicólogos sociais ensinam que os indivíduos possuem várias identidades, podem se tornar muitas coisas. Por exemplo, alguns indivíduos tornam-se verdadeiros idiotas quando assumem o volante do carro.
           Por isso eu digo: cuidado com os idiotas. Eles voam a 80 na faixa esquerda para logo ali à direita ter que virar. E eu não sei como é que não viram o carro! Eles te cortam, te tiram finos, cheiram seu rabo te pondo o farol alto, te buzinam no instante em que o sinal verde abriu, eles aceleram quando você atravessa na faixa. E só muita reza contra os idiotas, porque eles se materializam feito exu-caveira nas esquinas... Caveira não, tranca-rua é o nome desse I.: na rua, ele fica parado ao lado de outro estacionado, ele passa e arranca o retrovisor do seu carro parado, ele, em duas vagas, estaciona com um só carro.
          Outro exemplo é que alguns indivíduos tornam-se bem idiotas ao assumirem as rédeas de uma chefia. Rédeas, porque tentam conduzir os outros como cavalos. Cavalos eles, jumentlemen I say. Cuidado com os idiotas... Eles te darão trabalho e roubarão seu mérito. Eles te darão a culpa quando o erro foi deles. Eles vão teimar numa coisa, vão dizer 'não' até o fim, até que enfim só vão se convencer quando você os convencer de que aquela ideia sua era a deles desde o começo. Olhem o I., cuidado... Ele espera você errar só pra depois te dar aquela dica simples; e então pergunta por que você não pensou naquilo antes, era tão óbvio, qualquer idiota teria tido aquela ideia.
          Com os idiotas, muita atenção... Milagrosamente eles te cumprimentaram, perguntaram o que você anda fazendo? Não se alongue na resposta. Observe como tão logo eles linda e longamente irão deslindar todos os feitos deles, tão peritos, tão sempre prontos, tão para sempre príncipes. Pois não, Vossa Alteza agora quer um cafezinho? Esses I., vejam, detestam falsa modéstia. O indivíduo tem que mostrar quem ele é, fazer seu marketing pessoal. Eles dizem “Modéstia às favas” quando todos esperávamos “Modéstia à parte”, mas o que realmente esperávamos era só um pouco de modéstia. Deixa eu adivinhar: diante desse I.ndivíduo você se sentiu invisível como uma bolinha de catarro amassada no chão? Não estranhe, o Idiota gera em nós esse efeito.
              Mas sim, os belos idiotas, eles nos cativam, são muito admiráveis. São tão atletas, sempre limpos, tão saudáveis, sempre bem. E nós aqui... como porcos suados depois de subir algumas escadas. Eles escrevem muito bem, falam muito bem, dançam muito bem, eles sabem lançar aquele sorriso. E nós aqui... tecendo garranchos e gaguejando, trocando os pés e desviando o olhar. É... realmente os idiotas são muito admiráveis... São feito cobras ou leões, de longe muito admiráveis.

No meio do caminho tinha uma cobra...



Você respira fundo
e se aproxima.
Então a vê:
aquela cobra,
no meio do caminho,
era só,
nada mais que
um galho morto.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Publicação do conto "Uma noite na taverna"

Que alegria! Tive um conto publicado, o "Uma noite na taverna"! Na 6ª edição da Revista Cruviana - Caderno Especial de Contos. Ao lado de alguns importantes nomes da literatura cearense contemporânea. Eita, que honra! http://www.revistacruviana.com/


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

a.braços e dis-tensões



             Aqui faço um alongamento que não dou conta e distendo os músculos. Doem-me os tendões. Por aí distendem as palavras com hifens, pontos, parênteses e espaços. Doem-me os nervos.
            É algo muito em voga por parte de (pre)tensos poetas: pegam uma palavra, decepam ela de uma ou outra de suas sílabas, escrevem ela assim partida, um termo seguido do outro, e com isso dão a essa palavra outros sentidos... Às vezes, depois de bancar o açougueiro, colocam um termo abaixo do outro e essa sequência forma um pequeno texto, ele dotado como um todo de um outro sentido... Pra mim, são in-flamadas distensões...
            Aqui um exemplo de cortar os pulsos:

Expulso
Ex...Pulso
Pulso

            Ou então:

Não entendes o que desejo, é a minha intenção...
Não vês aqui dentro, qual minha in-tensão...

            Já vi muito em assinatura de emails – ao invés de “Até a próxima! Abraços!” escrevem tão poeticamente “Até a próxima! Há braços!”. Nossa, genial! Separou a palavra e criou outras duas, de modo que nós ouvimos o mesmo som, “abraços!” e assim uma despedida, mas “vemos” outra imagem, e uma imagem abstrata!, olha!, não necessariamente de braços literalmente, mas por metonímia: braços, força, disponibilidade, ajuda e correlatos.
            Já vi receita para a dor nossa de cada dia:

 Dor?
Ação!
Doação,
Doa ação...

            Já vi um aforismo à moda hippie:

Eternamente, éter na mente...

            Já vi um cheguevariando Darwin:

Viva à (r)evolução!

            Já vi trocadilho espertinho... e que não diz nada:

Separa-se... Para-se para separar. Se para, para separar se para.

            Já vi escárnio, talvez inspirado no Viramundo de Fernando Sabino:

Mentecapto, tua mente eu capto.

            Ou ainda um pequeno absurdo:

Católico
Cat-ólico
Gato Alcoólico

            Real-mente poetis-ações sofis-sticadas! Estou im-pressionado! Devo dizer que sua escrita é bem re-finada.
            Não é poesia, são recursos poéticos para dar um toque especial no meu texto. Não posso? Ou não, é poesia sim, não tenho liberdade poética? O texto não é meu?
            Claro que pode, feliz.mente não há nenhuma lei proibindo. Liberdade poética? Às vezes temos. O papel em branco é seu, a caneta é sua. Só não fique se achando “O artista” quando fizer tão óbvia poesia. É difícil ser o Paulo Leminski, é difícil fazer arte. A Arte não é óbvia, mesmo que com ela vejamos algo muito familiar.