domingo, 31 de julho de 2016

Reticências

I

Eu estava calado, não escrevia.
Meu silêncio me deixava seguro,
De mim, nenhuma poesia.
Porque o que tenho a dizer agora
Vem de uma ilusão
Perigosamente verdadeira.

Mas você tinha que me instar à palavra!...
Mas tinha que pôr em minha mão esta arma!...
...tinha que pôr esses seus olhos em mim...

Vou falar nada, porém.
Pois vai ser explosivo escrever sobre...
esse... essas...
— Não direi.
Não quero demolir nossas...
Não.
Não direi mais nada.



II – Ela...

Eu vejo teus olhos me vendo
E percebo cada olhar teu.
Então leio o que tu me diz
Nas reticências dos teus sorrisos:
São pensamentos que flutuam
(escapa um aqui, escapa outro ali),
mas que não ousa pronunciar.

Eu te agradeço por se calar
e apenas sorrir daí,
porque daqui
eu não saberia não responder à altura...
E veríamos muito mais do que os nossos olhos se vendo...

E ambos não saberíamos mais o que dizer ou olhar.



III

Ouço o que eu estou pensando que você está pensando de mim...
Mas eu realmente – sei muito bem – não ouço o que você pensa aí.
A não ser... que você fale,
Lance-me aqui, com o seu pensamento.

Realmente, então, o que eu ouço é o que eu estou pensando de mim
Na sua voz imaginada aqui comigo,
Que ecoa em algum lugar entre as minhas uma boca e duas orelhas.

É...
Não falar contigo me faz falar demais...



IV – Ela...

Saiba ficar calado
Cada vez um pouco mais
Aqui ao meu lado...

Lê os meus lábios
Que te deixo parados
Falando de beijos...

Chega mais perto...
Ouve aqui baixinho:
Os meus olhos não são a porta da minha alma.
(Eu não tenho alma)
Eles são as comportas do meu corpo,
(Que é só o que eu tenho)
E ele sua, e ele sangra,
E ele molha, e ele suja.

Vê:
Os meus olhos te dizem
Também um pouco mais
Sobre todo o meu desejo
E eu os fecho pouco a pouco
Pois o querer não dura muito tempo...

Então saiba ficar calado
E mergulha um tanto mais
Aqui no meu lago...
Agora bebe os meus lábios
Porque eu te quero afogado
E sem palavras
Só beijos...



V

Eu sei ficar calado,
Mas a sua boca chama a minha ao ato:
Então falo,
Pedindo também o seu beijo.

Tento ler o seu olhar
Mas, analfabeto,
Só o vejo.
E vejo:
Como às vezes me olha,
Como às vezes se esquiva,
E como às vezes...
                                  sequer
                                                 olha.
E eu não entendo se é fúria ou se é desejo.

E quando você não me vê
Ou por vezes se esquiva
Ou distante me olha,
Ouço você me dizendo:
Me decifra ou te devoro. Sem demora!
Mas você de fato não disse nada...
E eu acabo dando mil respostas à pergunta nenhuma
E você me devora.

É...
Quando tudo não é dito, pode tudo ser ouvido.
E eu, um doente dos olhos,
Imagino de tudo do que nada sei.

Não sei ficar calado...
Acontece de minha alma ser toda feita de palavras.



VI – Ela...

Detesto você me trazer à fala.
Não vê que o nosso elo é de silêncio?
Você fala muito e isso me faz falar
Para que você se cale.
...
...
...

Sim...
É bem melhor assim...
Quando as nossas bocas se juntam
Com nenhum espaço às palavras
E os nossos olhos fechados
Nos fazem ver a nossa pele:
Cintura com cintura
E os meus seios
E as suas mãos
E os nossos beijos.


VII

Se te penso, você não ouve.
Se te amo, você não vê.
O amor está aqui dentro? Ou aí?
Nada.
Somos pele, então carne e ossos.
No peito, coração é só isso que bate,
...Às vezes mais rápido quando te vejo.
E dentro dele só há sangue em fluxo.
...Às vezes mais lento quando te deixo.

Vê?
Também não tenho alma
E sou só corpo.
Não sou um vaso vazio,
Mas um bloco vivo.
E digo:
Eu sou isto que olhas e vê passar.
Eu sou esse que fala e te faz falar.



VIII – Ela...

Pois eu te digo:
Suas palavras não te preenchem a alma que sequer tem.
Elas

Te levam
De mim
Que estou
Aqui
Na sua frente.



IX

Vejo que amanhã olharei seus olhos
E com eles,
Reflexos,
Eu verei meu rosto.
E o meu rosto, neles, me parecerá terrível.



X – Ela...

Ainda que me tendo ao teu lado
Você

Olha esse teto sem respostas
No alto
Escrevendo qualquer nada nessa página em branco de muitas linhas.

E você então me disse:
“Vou embora e você não vem!
Que tipo de história é essa a nossa?
De ponto final ou de reticências?”

Vejo que as linhas da nossa história
São como as linhas das nossas mãos:
Curtas, tortas e sem qualquer significado.

Porque um amor que se inventa, meu amor,
Recebe sempre um ponto final na última página.



XI

Sim, meu amor, mas eu preciso fazer mais coisas
Que eu não preciso fazer.
E eu vou embora e você não vem.
Já disse.
E eu não preciso te amar.
Amar não é coisa que se faz por dever.

Você não é nenhuma divindade,
Dessas que se amam à distância.
Então de mim não espere nenhuma súplica.
Porque de você não espero menos que simples reticências.



XII – Ela...

Não se engane.
Eu vejo como você me vê:

O que você só vê
nos meus,
são os teus olhos.

O que você só ouve
nas minhas,
são as tuas palavras.

O que você só sente
no meu,
é o seu corpo.

O que você só quer
no meu,
é o seu próprio amor.

E sim, nisso você sempre se mostrou muito bom:
maquinar, planejar, calcular...
Muito bem:
Pois receba aqui as minhas reticências...


~~FIM~~

Umbelino Neto
31 de julho, 2016.

Nenhum comentário:

Postar um comentário