23 dezembro 2023

Enterrado vivo

tu cavou um buraco muito cedo
pra se enterrar
muito novo
embaixo de uma certa máscara  

quem foi que te ajudou nessa empreitada?
foi teu medo de ser julgado por toda a sala
quando você só queria fugir de toda aquela algazarra
e de toda a piada que faziam com o teu nome e com a tua cara

você se perguntou:
mas quem iria gostar dessa criança tão tosca e tão desconcertada?
e a si mesmo se enterrou...

você se enfiou, criança, naquela cova nada rasa
lá embaixo, silenciosa, abafada
abafando tua voz engessada
engessando o burilado dos teus dedos inquietos
aquietando o balançar do teu tronco curvado
curvando os teus olhos e os de quem visse a tua tensa e contraída cara

a vida é mesmo engraçada
pois foi a vontade de morrer o que te tirou daquele buraco...
e morreu a tua máscara
teus olhos chuvosos realmente fizeram uma grande temporada
naquele temporal das tuas cicatrizes doloridas
atemporais

teu Eu será para sempre o teu trauma?

saiba que os girassóis voltaram a girar 
pois eis o Sol agora
traz o teu rosto pra um ar fresco aqui fora
vai ser bom te ver respirar

tu ainda se lembra como é ser do teu próprio jeitinho?
mal se lembra? tudo bem... podemos ir devagar
não tem problema
que seja no seu tempo, continuo aqui contigo
você pode se soltar
porque eu te amo do jeitinho que você é


Nenhum comentário:

Postar um comentário